Por que esse nome?

Como o nome bem nos indica, canto porque é vocal, é a palavra que canta na voz humana.

Gregoriano vem de seu patrono o célebre Papa São Gregório Magno, cujo papado se estendeu de 590 a 604.

Na verdade São Gregório não foi o autor do Canto Gregoriano, como muitos o pensam, mas seu grande promotor.

Ele organizou o repertório das melodias romanas, que já era muito vasto.

Foi também ele a promover a Schola Cantorum. Esta consistia em cantores que se especializavam no canto litúrgico. A Liturgia será como o útero do Canto Gregoriano.

A formação de cada cantor era muito completa e durava no mínimo dez anos.

Na época não existia a partitura escrita como hoje, era uma escrita no que chamamos de “campo aberto”, sem pautas, com alguns sinais provenientes, a princípio, dos acentos verbais.

Este Canto nos foi passado no início do Cristianismo, sobretudo como uma tradição oral e, então, o grande trabalho exigido dos cantores era o da memória.

Como surgiu?

Sua origem é extremamente complexa e remonta aos primórdios do Cristianismo, e, como ele, tendo suas raízes em lençóis d’água anteriores, isto é, na cultura hebraica ( principalmente com o seu cantar dos salmos), e na grega entre outras.

Existem hipóteses mais ou menos plausíveis sobre sua origem, mas não podemos fazer afirmações categóricas e matemáticas a este respeito.

Seu terreno de origem foi o mesmo da cultura ocidental: a bacia do mediterrâneo, caldeirão fecundo onde tantos ingredientes culturais se misturaram.

Podemos fazer uma analogia com a cultura brasileira que tem nas culturas européia, indígena e africana, suas raízes, dando um produto que é, como se diz na “gestalt”, maior do que a soma dos ingredientes.

Como no Brasil temos diversos sotaques de norte a sul, na Europa, a liturgia latina, celebrada em Latim, o vínculo de união, tinha suas características próprias em cada região.

Dando um salto de séculos, Pepino o Breve, pai do futuro Carlos Magno, obteve uma legitimação como rei dos Francos, através de sagração recebida do Papa Estêvão II,o mesmo tendo vindo à França com este intuito em 754.

Ele viu na adoção da liturgia romana, a que era cantada na Capela Papal, um poderoso meio de unificação de seus territórios.

Pediu ao Papa que enviasse os códigos litúrgicos (Antifonários), e cantores que ensinassem aos cantores da Gália a parte musical, pois como o sabemos, o canto era passado oralmente.

Houve uma série de percalços , o Papa havia mandado , entre outros, o seu segundo cantor. Acontece que nesse ínterim, o primeiro cantor da Schola Cantorum Papal faleceu e o Papa teve que chamar de volta a Roma o seu segundo cantor.

Os cantores da Gália se viram com os Antifonários textualmente completos mas sem a música.

Diante de tal dificuldade incontornável tiveram que compor as músicas para os textos.

Daí surgiu o Canto Gregoriano, no nordeste da Gália, no fim do VIII século (dois séculos depois de São Gregório Magno).

Um Canto romano-franco: romano pelos textos e franco pela música.

Esta é a hipótese defendida pelos monges de Solesmes, responsáveis pela restauração do Canto Gregoriano no século XIX.

Tal Canto se espalhou por toda a Europa ocidental, exceto em Milão, onde o Canto Ambrosiano não lhe cedeu o lugar.

Do VIII ao IX séculos temos a era de ouro do Canto Gregoriano.

Falando de sua espiritualidade: o Canto Gregoriano, como dizia Dom Jean Claire (1920-2006) que foi Mestre de Coro de Solesmes durante 25 anos, até aproximadamente o ano 2000, o Canto Gregoriano fez três votos:

 

  1. a) De pobreza porque é monódico, todas as vozes se unem numa só voz.
  2. b)De obediência porque sua razão de ser é a de servir o texto litúrgico, que em sua maior parte é extraído da Sagrada Escritura.
  3. c)De castidade porque ele não procura efeitos para excitar a sensibilidade, mesmo quando explode num Aleluia, exclamação pascal por excelência, e onde deixa passar como num “gêiser”, a força da vida que vence a morte, a força da ressurreição.

Os Salmos são o livro mais cantado.

Existem textos eclesiásticos, como os hinos, que haurem na Sagrada Escritura e nas reflexões teológicas da Igreja, sua força vital.

Um exemplo disto é o “ Veni Creator Spiritus”.

Enfim, sob o aspecto cultural, no Gregoriano está a fonte de toda a música ocidental.

Ele apresenta também elementos universais, o que faz com que ele possa ser ouvido não só por uma cultura específica, mas por todo e qualquer ser humano. Mesmo que falte a compreensão da língua Latina, entra-se em sintonia com a beleza.

Um desses elementos é a pentatonia (5 sons) dispostos de tal maneira que tem uma estabilidade auditiva (não tem semitons) impressionante, que todavia guarda um dinamismo interno.

Encontramos a pentatonia tanto em cantos dos pigmeus, na música chinesa, em nossa música indígena, na africana e mesmo no folclore europeu. Bela Bartók pesquisando o folclore húngaro o encontrou.

Existe também um elemento que o enriquece: o modal.

A música a que estamos mais habituados é tonal e, ela , na verdade só tem dois modos: o maior e o menor.

No Gregoriano temos no mínimo 8 modos, se bem que recentes pesquisas nos desvelem outros. Aqui, quando dizemos modulação, trata-se realmente de uma modulação e não de uma transposição.

E hoje?

O Canto Gregoriano foi confirmado pelo Concílio Vaticano II, em sua Constituição sobre a Liturgia, Sacrosanctum Concilium,, como o canto próprio da Igreja Latina:

116. A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”.

 

Cada vez mais se descobre seu valor espiritual, cultural, artístico e mesmo terapêutico.

Na verdade é um patrimônio da humanidade.

Como eu o definiria?

Com uma frase atribuída ao Beato João Paulo II:

“ São as núpcias da Palavra de Deus com a voz humana!”.