Jesus viveu com docilidade ao Pai, suas opções eram guiadas pelo Espírito. A esse respeito a RB 4,41.74 propõe colocar toda esperança em Deus e nunca desesperar de Sua misericórdia. Isso supõe uma atenção ao presente (RB 19,7) para termos os passos prontos à voz de quem ordena (cf. RB 5,8). Essa disposição de vida levará à leveza interior e no trato social, pois São Bento deseja que ninguém se entristeça na casa de Deus. (RB 31,19)

 

Espiritualidade – sendo cristã será sempre trinitária. É o sopro de Deus que anima a partir de dentro e faz viver e gerar vida. É Deus animando minha vida. A espiritualidade bem alimentada vai progressivamente aproximando-me de Deus e compreendendo seu plano de amor para comigo; consequentemente eleva e transforma a vida relacional. Nossa espiritualidade é como a seiva da árvore.

Árvore sem seivatrabalha demais, mas não cuida da oração na vida; é ativismo.

Árvore sem terrasó oração, louvor, sentimentalismo, religião sem compromisso, somente para proporcionar bem-estar.

Árvore sem raízes e frutos – cumpre dever, mas não se deixa penetrar dos valores e com isso não transforma em vida a existência.

Árvore suculenta – deixa a folha orvalhada no frescor do crescimento, recebe com sabor a sucessão do cotidiano, sabendo que aí Deus se faz presente e operante. Isso faz a pessoa apaixonada pela vida que tem.

Espiritualidade dos intervalos – pensa em Deus quando está desocupado.

Espiritualidade da fuga – se refugia na oração para não enfrentar problemas.

Espiritualidade encarnada – do encontro com Deus em tudo que é humano, tem paixão pela vida. Vive a cruz do sofrimento e a ressurreição da vida nova.

 

Na vida de São Bentosei que é páscoa porque tive a graça de te ver (II Dial. I,6-7). Visão de fé nos acontecimento. Busca insistente e incessante da vontade de Deus na própria vida. Docilidade. Vejo os fatos da vida à luz de Deus. Somos chamadas a encontrar vida através do que parecia morte (cf. RB 68 – quando é pedido algo que parece impossível). Deixar o coração arder, tendo os passos prontos para a obediência.

 

Na santa Regra – São Bento nos convida a esperar a santa Páscoa na alegria do desejo espiritual (RB 49,7). Somente em dois capítulos da Regra São Bento menciona a alegria 5,6 citando 1Cor9,7 a respeito da obediência como oferta de si: Deus ama quem dá com alegria. E duas vezes no cap. 49,6.7 para mostrar com que espírito se deve oferecer a Deus renúncias e propósitos: ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito Santo (1Ts 1,6), alguma coisa além da medida estabelecida para si. Considera também a páscoa semanal de cada domingo como tempo oportuno de viver mais intensamente a vida em Deus, para as monjas, levantando-se mais cedo para ter mais tempo para a oração, para todo cristão, aumentando a conexão com o Senhor de alguma forma explicita: a celebração eucarística, um momento de oração, a refeição familiar mais cuidada, uma visita.

Nessa perspectiva trabalho e oração são mesclados na lectio divina que exige empenho, disciplina, bom espírito, mas sobretudo docilidade, deixar-se conduzir por esse Deus inovador e surpreendente que nos toca, desassossega e tanto espera de nossa resposta de vida. Deixar que o ressuscitado invada nossa vida concreta, deixando para trás os queixumes, a amargura, o desanimo com tudo, o espírito de derrota e azarrismo.

O espírito de mansidão desarma e derrota o inimigo, amigo da discórdia e divisão.

Viver no ressuscitado supõe ainda uma dimensão comunitária, partilha da alegria interior, comunhão sociabilizada, na expectativa de juntos chegarmos à vida eterna (RB 72,12).

Viver no Ressuscitado é como o respirar sereno após a borrasca da tempestade, sabendo que, para além da dificuldade que se vê de imediato, Deus reina na vida humana e sobre ela.

É sobretudo viver com gratidão pelo Senhor que renova a existência, floresce na terra e reúne os filhos de Israel dispersos, fazendo com que todos sejam um só corpo Nele. É longo o dia de deserto que a provação oferece viver, mas é densa a consolação que o Senhor nos faz experimentar por ter perseverado em Seu amor.