Dentre tantas partilhas, reavivando em nós temas dos primórdios da vida monástica, Dom Justino de A Bueno, OSB, monge do Rio de Janeiro, expomos abaixo o vício da acédia.

 

  Identificada como ansiedade do coração, tédio, próxima da tristeza, denota falta de interesse e solicitude por tudo. Sente aversão por tudo o que faz; faz a pessoa pensar que se estivesse em outro lugar seria valorizada e feliz; talvez ali onde está não esteja agradando a Deus; estado de prostração. Despreza a companhia dos outros e os acha sem fervor. Crê-se apta a governar os outros e sente-se injustiçada, acredita que o mundo perde sem sua colaboração. Considera que outros lugares são mais favoráveis enquanto que tudo que a cerca é tedioso e perseverar ali seria condenar-se à perdição. Sente-se sempre exaurida. Sente desgosto, sonolência constante e incapacidade de viver plenamente o momento presente. Não encontra sentido no que faz e não vê possibilidade de salvação. Está indiferente a tudo, contrária à vida e ao amor. É uma espécie de atonia, um mutismo da alma que leva à paralisia, ao vazio espiritual, nostalgia e sentimento de exílio sobre a terra. Há superficialidade e falta de profundidade na vida, não se concentra nem leva a sério as coisas. É incapaz de perseverar, de zelar e de cuidar: a – cedia; não – cuidado. É diferente da tristeza porque não tem motivo preciso; é desgosto generalizado pela vida. Pode levar à ruína todo o edifício da vida. Vê-se incapaz de possuir convicções; está numa espécie de inferno. Antes se sentia filha; agora se sente escrava. Pretende ter clareza sobre si, mas consente em ter alma pequena; tem um horizonte curto e não se harmoniza, antes cria instabilidade.

É considerado um mal de nosso tempo; vemos um aumento de suicídio; a sociedade é considerada deprimida, vive num mal obscuro que impede a pessoa de amar e se sentir amada.

            Se a pessoa consegue vencer esse vício entra em estado de alegria indizível. Como remédio a pessoa empenhada em sua vida espiritual deve fazer bem cada obrigação e até o fim, sem querer mudar de função. Do mal Deus tira o bem para a pessoa que tem a capacidade de regeneração, de refazer o caminho e sem medo. É preciso enfrentar o desconhecido e confiar em Deus e, como diz São Bento “procurara utilidade do outro” (RB 73). Só depois de identificado o vicio pode ser repelido e assim assumir um sadio e equilibrado trabalho para ajudar a assumir o presente, o “aqui e agora”. É uma ajuda fixar medida para cada atividade e cumprir essa meta, por isso é interessante fazer metas possíveis e não desertar da luta para que o terreno da perseverança seja bem arado. São Bento, após um episódio difícil em Vicovaro, voltou para sua cela de monge para “habitar consigo mesmo”, para ficar perto de si mesmo, de sua vida, enfrentando os pensamentos e discernindo-os, lembrando que é “morada de Cristo”. Dizia Santo Agostinho: “Deus estava dentro de mim e eu o procurava fora”. Para que procura o cuidado de si resta a vigilância, o discernimento, a perseverança, a eucaristia (exercício de ação de graças – sacrificium laudis), que é contrario à acedia, com sua incapacidade de maravilhar-se, de dar graças. "Em tudo e por tudo dai graças".