Bento XVI, em sua encíclica “SPE SALVI” disserta sobre esta questão que tanto preocupa os que se iniciam no caminho da espiritualidade. Diz ele que, no decorrer dos séculos, todas as tentativas de representar a esperança despertaram a coragem de viver segundo a fé e, assim, de abandonar inclusive os bens materiais buscados para a própria existência. Lembra que a Carta aos Hebreus traça a história daqueles que vivem na esperança, e sua condição de caminhantes, desde Abel até a sua época.

A geração moderna faz um crítica sempre mais dura a esse, modus vivendi, acusando-o de individualismo, de abandono do mundo à sua miséria, em busca de refúgio numa salvação eterna puramente privada.

Segundo o pensamento de Henri de Lubac, uma característica das críticas dessa natureza pode ser expressa na questão: “Será que encontrei a alegria? Não... Encontrei a minha alegria. O que é algo terrivelmente diferente... A alegria de Jesus pode ser individual. Pode pertencer a uma só pessoa, e esta está salva. Está em paz... agora e para sempre, mas ela só. Esta solidão na alegria não a perturba. Pelo contrário; ela sente-se precisamente a eleita! Na sua bem-aventurança, atravessa as batalhas com uma rosa na mão” (Catholicisme).

Mas Henri de Lubac, apoiado nos Padres pôde demonstrar que “a salvação foi sempre considerada uma realidade comunitária”. E Bento XVI volta à Carta aos Hebreus que fala de uma ‘cidade’, o que nos faz compreender uma salvação comunitária. E continua o Papa: “o pecado é entendido pelos Padres como destruição da unidade do gênero humano, como fragmentação e divisão. Babel, o lugar da confusão das línguas e da separação, apresenta-se como expressão daquilo que é radicalmente o pecado. Assim, a “redenção” aparece precisamente como a restauração da unidade, em que nos encontramos novamente juntos, numa união que se delineia na comunidade mundial dos crentes” (cf. Hb 11,10.16; 12,22; 13,14).

E Sto. Agostinho (Ep. 130), lembra o salmo 144(143), 15 que diz:”Feliz o povo cujo Deus é o Senhor”, e adverte que “para poder formar parte deste povo e viver eternamente com ele, parte-se evidentemente da observância pessoal dos mandamentos, cujo “fim é promover a caridade, que procede de um coração puro, de uma consciência reta e de uma fé sincera” (1 Tm 1,5).

E termina o Santo Padre: “Esta vida verdadeira, para a qual sempre tendemos, depende do fato de se estar na união existencial com um “povo” e pode realizar-se para cada pessoa somente no âmbito deste “nós”. Ela pressupõe precisamente o êxodo da prisão do próprio “eu”, pois só na abertura deste sujeito universal é que se abre também o olhar para a fonte da alegria, para o amor em pessoa, para Deus”.

Portanto, a visão da “vida eterna”, a vida feliz, bem-aventurada, que cada um procura na busca da espiritualidade, visa algo que está para além de si mesmo, não é uma visão individualista, mas está para uma realidade comunitária, para a edificação do mundo que deve ser transformado em uma comunidade de vida e de paz.