Mensagem do Mosteiro Beneditino “Mater Ecclesiae”,

 Ilha São Júlio

 

Caríssimos jovens,

 

Não é fácil dizer-lhes em poucas palavras em que consiste o carisma da vida monástica. Esta, entre todas as vocações, é, talvez, a menos compreendida exatamente porque é a mais escondida e, aparentemente, a menos útil. De fato, não se propõe a realizar obras específicas de caráter apostólico, assistencial ou educativo.

Qual é, então, o seu sentido, a sua beleza?

A vida monástica tem o seu fascínio secreto simplesmente em ser uma resposta radical e absolutamente gratuita ao Amor gratuito de Deus, mas sem perder de vista os seres humanos. Esta é um sinal transparente das realidades invisíveis, uma antecipação do Reino que vem e, ao mesmo tempo, nada de tudo quanto diz respeito ao ser humano na sua situação histórica lhe fica estranho. É uma vida em Deus para os irmãos. Põe-se, assim no coração da missão eclesial.

De que modo se realiza isso? Através de uma via muito concreta: a escolha da virgindade consagrada e da vida no seio de uma comunidade, sob uma regra e um abade, com o empenho fundamental de praticar estavelmente a pobreza, a humildade, a obediência, para transformar-se não somente em uma pessoa que reza, mas em uma oração incessante; para ser não apenas uma pessoa que faz alguma coisa pelos outros, mas que sempre está para os outros diante de Deus.

 A vida monástica nasce do desejo de tomar literalmente a palavra de Jesus em demonstrar com os fatos que não há amor maior do que aquele que impulsiona a dar a vida pelos outros. Se alguém a avalia do ponto de vista individualista e eficientista, não pode considerá-la senão absurda. Mas se tem fé e aceita a “loucura” da cruz, compreende que a vocação monástica situa-se exatamente no coração do mistério cristão, que aprofunda as suas raízes no Fiat – Sim de Maria em Nazaré, e no Fiat – Sim de Jesus na hora de sua Paixão redentora.

O mosteiro não é adequado, pois, àqueles que buscam realizar-se a si mesmos em um plano puramente humano, mas é para os pobres em espírito que – tocados por Deus – intuem o que seja o crescimento do homem interior até a plena estatura de Jesus Cristo.  Descoberto o tesouro – que é Jesus mesmo – escolhem-no como o único amor e por isso não hesitam em considerar todo o resto como um nada, mas antes, como “lixo” ao qual se deve dar as costas, segundo a expressão de S. Paulo (cf. Fl 3,8).

Obviamente, para tornar-se verdadeiro discípulo de Jesus e estar a seu serviço para sempre, em tempo integral, e partilhar a busca de Deus com outros pobres, o monge descobre bem depressa que deve, antes de tudo, deixar-se a si mesmo, aquilo que acredita ser ou que pode vir a ser; deve tornar-se totalmente  livre para a  realização do projeto de Deus sobre ele.

Transforma-se, por isso, no homem do silêncio para a escuta, o homem que vive da Palavra de Deus, o homem que se faz lugar no qual tal Palavra se realiza como um “evento de salvação”.

Transforma-se, além disso, no homem da solidão para a comunhão.

Assim, cada atividade interior e exterior sua – oração e trabalho – é serviço de culto a Deus para todos os irmãos. Isso se torna possível exatamente pelo fato de que ele, desapropriando-se espontaneamente de si mesmo, conforma-se em tudo a Jesus humilde, pobre, obediente, fiel até o extremo cumprimento da missão a ele confiada pelo Pai.

Ele consuma diariamente o seu sim com uma dedicação completa não tanto nas situações extraordinárias – que podem também nunca acontecer – mas sobretudo, na vida cotidiana que, às vezes, parece por isso mesmo, insignificante, contudo, na realidade, impõe uma generosidade realmente heroica.

De fato, uma vida casta, pobre e obediente, laboriosa e orante, não é espontânea, mas exige uma constante e profunda ascese, a renúncia a si mesmo.

Neste caminho de contínua conversão, cada um dos monges encontra na comunidade monástica um grande sustento, mas também uma dura luta. Tudo na vida comum deve reger-se sob a lei fundamental da caridade, do competir em honrar-se e em ajudar-se reciprocamente, cada um desejando ser o último para que o outro seja o “primeiro”. É desse modo que se deixa o primeiro lugar para Cristo. E isto não é sempre fácil. Mas para quem crê, para quem põe em Deus a sua confiança, isto se torna possível e uma inesgotável fonte de consolação e de santa alegria.

Em uma palavra, o monge é a testemunha da alegria pascal, porque, como diz S. Bento na sua Regra, aceitando participar, com o seu manso padecer, dos sofrimentos de Jesus Cristo, chega também a participar da sua glória.

Neste ponto, talvez algum de vocês gostaria de colocar uma pergunta: se a vida monástica é assim exigente na sua radicalidade, quem terá  coragem de abraçá-la?

A coragem é dada por Deus mesmo àqueles que Ele chama. E sempre chama. Se alguém sente dirigido a si o apelo divino responda simplesmente “Eis-me aqui!”, sem desânimo, sem deixar-se paralisar pela própria inadequação – todos somos inadequados -, mas com a adesão da fé e com a dinâmica do amor que nada vê como impossível, porque o amor participa da mesma onipotência de Deus. Por isto cada um deverá prestar contas da própria correspondência ao dom recebido. O Rabino Sússia, à beira da morte, dizia: No mundo futuro não me perguntarão: Por que você não foi Moisés? Por que você não foi Elias ou qualquer outro profeta ou grande santo? Perguntar-me-ão, em vez disso: por que você não foi Sússia? , ou seja, porque você não foi você mesmo, segundo o desígnio de Deus?

Eis o ponto capital: permanecer no jogo de Deus – que é muito sério – e jogar a vida com toda a lealdade.

 

Me. Anna Maria Cànopi

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