“Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade... Esse plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e fortalecem os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. E estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido“... (DV 2). A plenitude dessa revelação é Cristo Jesus em sua vida, paixão, morte e ressurreição.

“Jesus ressuscitou, e foi então, que aconteceu algo de verdadeiramente novo que muda o mundo e a situação do homem” (Bento XVI). Esse acontecimento não é somente “algo” que aconteceu no passado. É Cristo ontem e hoje, um rosto que vem ao nosso encontro, agora. O nosso eu não pode ser movido, transformado, a não ser  por uma contemporaneidade, um acontecimento presente, hoje.

Como afirmou o Beato Papa João Paulo II, “a contemporaneidade de Cristo com o homem de cada época realiza-se no seu corpo que é a Igreja” (VS 25). “A relação entre Cristo, Palavra do Pai e a Igreja não pode ser compreendida em termos de um acontecimento simplesmente passado, mas trata-se de uma relação vital na qual cada fiel, pessoalmente, é chamado a entrar” (VD 51). E ele entra e permanece nessa “relação vital”, por meio da Liturgia.

Em primeiro lugar, a dos Sacramentos: Batismo, Crisma, Eucaristia, Penitência, Sacramento dos Doentes, Ordem e Matrimônio, mas também a

”Liturgia das Horas”.

“De fato, para levar a efeito obra tão importante, Cristo está presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no Sacrifício da Missa, tanto na pessoa do Ministro, pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na Cruz, quanto, sobretudo, sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força nos Sacramentos, de tal forma que , quando alguém batiza, é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é Ele mesmo quem fala, quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente, quando a Igreja ora e salmodia” (SC 7).

Admirável sabedoria de nosso Pai São Bento, que em sua Regra nos dá dois aforismos notáveis pela sua quase identidade:

“Nada, absolutamente, anteponham a Cristo” (RB 72);

“Nada se anteponha ao Ofício Divino” (RB 43),

estando a diferença somente na ausência do advérbio “absolutamente”.

As primeiras palavras da Regra beneditina são: “Escuta, ó filho”... Escutar o quê? Em última análise, a Palavra de Deus. “E para compreendê-la, é necessário entender e viver o valor essencial da ação litúrgica... onde a Palavra de Deus é celebrada como palavra atual e viva. Aqui também a sábia pedagogia da Igreja proclama e escuta a Sagrada Escritura, seguindo o ritmo do Ano litúrgico. E assim, temos a Palavra de Deus distribuída ao longo do tempo, particularmente na Celebração Eucarística e na Liturgia das Horas (VD 52).

A Liturgia das Horas, ou seja, o Ofício Divino, está constituído de tal modo que seja consagrado pelo louvor de Deus todo o curso do dia e da noite: Vigílias, Laudes, (ao romper da aurora), Tércia (oração das 9 horas – para os antigos que não tinham relógio era a “terceira hora” após o nascer do sol), Sexta (ao meio dia, “sexta hora”), Noa (às 15 horas, “nona hora”) Vésperas (à tardinha, quando aparece a “estrela” Vésper)  e Completas ( ao terminar o dia). É a voz da própria Esposa que fala com o Esposo, é a oração do Cristo com seu Corpo Místico, ao Pai.

Os Salmos são o núcleo da Liturgia das Horas. A Igreja, novo Israel, os adotou, embora não encerrem mais que uma sombra da plenitude dos tempos que se revelou em Jesus Cristo. Daí, a necessidade de rezá-los na perspectiva cristã e de lembrar que são poesia, e poesia hebraica.

A Liturgia das Horas segue o ritmo do Ano Litúrgico que revive os grandes acontecimentos da História da Salvação. Se bem que celebrados, sobretudo, aos domingos, sua riqueza é tão grande que dá lugar ao que chamamos de “tempos litúrgicos”. Todos eles, Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Tempo comum, têm textos próprios da Sagrada Escritura que são a base de nossa Lectio Divina, isto é, leitura orante da Bíblia, feita em particular ou comunitariamente.

É nesse quadro litúrgico que transcorre o dia da monja desta Comunidade. Ele não é, literalmente, idêntico ao que está descrito na Regra de São Bento, que atravessou 15 séculos e ainda é atual, justamente porque inserida na Igreja – “Sentire cum Ecclesia” – e caminhou no seu ritmo, acomodando, às necessidades de cada época, o que era susceptível de mudanças. Hoje, os tempos mudaram. Não mudou, porém, o essencial da Regra: a busca de Deus, o amor do Cristo, a vida litúrgica, a vida fraterna em comunidade. No centro de tudo, refulge o Mistério Pascal, ou seja, a presença do Senhor ressuscitado em todos os afazeres da monja, numa comunidade de fraternidade e comunhão: nos hóspedes, nas doentes, na portaria, nos pobres, na preparação da Liturgia, nos trabalhos domésticos, artísticos ou culturais. Se os tempos mudaram, o movimento aumentou.

Situado numa grande cidade, o Mosteiro de N. Sra. das Graças é muito procurado. Para guardar o equilíbrio entre “trabalho e oração”, tem um dia de Retiro na 1ª. sexta-feira do mês, um Retiro anual de oito dias com pregador, mais dois Retiros sem pregador, um na 1ª semana do Advento, outro na 1ª semana da Quaresma.

Na Igreja os carismas do Espírito Santo são diversos

e a vida monástica é um deles.

Ir. Martinha

 

FONTES:

DV – Dei Verbum

RB – Regra Beneditina

SC – Sacrosanctum Concilium

VD – Verbum Domini

VS – Veritatis splendor.